Raabe

Raabe

Raabe
Pearl in the Sand | Amazon.com.br
Pérola na Areia - Tessa Afshar
O título deste romance e o uso de pérolas na história são resultado da licença poética. Embora os egípcios usassem madrepérola dentre suas joias naquela época, não houve evidências arqueológicas referentes ao uso propriamente dito das pérolas até os séculos mais recentes. No entanto, Madrepérola na Areia não teria o efeito proposto.

As Escrituras nos dizem que Raabe era uma prostituta (meretriz era o eufemismo usado para essa palavra), e a Bíblia hebraica usava duas palavras diferentes para descrever a prostituição: a primeira, kedeshah, se refere ao templo das prostitutas; a segunda, zonah, se refere aos tipos mais comuns de prostituta. Independentemente de a profissão de Raabe ser mencionada ou não, a palavra zonah é usada. Nossa história gira em torno dessa distinção.

Muitas referências feitas a Raabe, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, incluem o termo zonah (Raabe, a zonah), uma indicação de que o povo de Israel nunca esqueceu totalmente do passado dessa mulher. Embora a maioria das descrições associadas a ela tenha tendências positivas, este relato mostra que Raabe talvez tenha tido uma recepção um tanto quanto ambígua em seu novo lar. Por um lado, ela foi bem-vinda e admirada; por outro, seu passado ainda repercutia no presente.

O nome de Salmom aparece escrito de várias maneiras diferentes no original hebraico, como Salmon, Shalmon e Salmone. Na maioria das versões bíblicas de nossa língua, traduziu-se como Salmom, o que felizmente acabou por não coincidir o nome do nosso herói com o nome de peixe.

Sempre que possível, este livro recorre a fontes bíblicas e arqueológicas. A situação no capítulo dezessete, que compara a experiência de Raabe em Jericó à situação de Israel no Egito durante a primeira Páscoa, foi inspirada em um capítulo do livro Reading The Women of the Bible, de Tivka Frymer-Kensky (Nova York: Schocken Books, 2002, pp. 297-300). No entanto, este livro é por essência um romance - um registro ficcional de uma mulher que teve grande importância histórica tanto para os judeus quanto para os cristãos. A Bíblia hebraica revela que, após a destruição de Jericó, Raabe foi viver permanentemente em Israel, mas não há maiores detalhes sobre sua vida (Josué 6:25). Para os cristãos, o destino de Raabe é revelado em um fragmento de um dos versículos de Mateus, em que se descreve a genealogia de Jesus. Estas palavras simples nos mostram seu destino maravilhoso: “E Salmom gerou, de Raabe, a Boaz” (Mateus 1:5). Ou seja, Salmom e Raabe se casaram e tiveram um filho.

A Bíblia nos dá uma visão geral do passado de Salmom por meio de diversas genealogias (1 Crônicas 2:11; Rute 4:20-21). Certamente, ele veio de uma família bastante distinta de Judá; seu pai, Naassom, era o líder do povo de Judá e a irmã de seu pai era casada com Arão (Números 2:3-4). Nada se sabe sobre as realizações e feitos de Salmom, mas ainda assim o versículo de Mateus é impressionante. Como seria possível um homem que é praticamente um aristocrata judeu, importante o suficiente para ter seu nome registrado nas Escrituras, casar-se com uma mulher cananeia que ganhava a vida entretendo homens? Grande parte desta obra aborda esse questionamento, e obviamente esse aspecto do romance é puramente ficcional. Sabemos apenas que Salmom casou-se com Raabe, teve um filho com ela e o próprio Jesus enumera a prostituta cananeia como uma de Suas ancestrais. No entanto, a Bíblia não nos revela de que maneira esse casamento aconteceu ou quais obstáculos a relação enfrentou.

Ler um romance não é a melhor maneira de estudar as Escrituras, para isso temos a Bíblia. De forma alguma, esta história tem a intenção de substituir o poder transformador que o leitor encontrará nas Escrituras. Para uma melhor descrição bíblica de Raabe, leia Josué 1-10, Mateus 1:1-7 e o livro de Rute.


Capítulo Um

Ainda não havia amanhecido quando Raabe acordou com uma cotovelada insistente. “Deixe de ser preguiçosa, garota. Seu pai e seus irmãos já estão quase prontos para ir”. Depois disso, sua mãe lhe deu mais uma cotovelada.

Raabe suspirou e decidiu levantar. Com os olhos turvos e com o corpo pesado, ela se esforçou para ficar em pé. Há dois meses Raabe executava tarefas de homem, acordando antes do dia amanhecer e trabalhando duro na terra, com pouca comida, pouca água e sem o descanso necessário para renovar as energias. Mas era inútil, até uma menina de apenas 15 anos conseguia ver isso. As terras não haviam produzido nada, a não ser poeira, e assim como o restante de Canaã, Jericó estava sob o domínio de uma grande seca.

Embora soubesse que seus esforços seriam desperdiçados, todos os dias ela dava o melhor de si ultrapassando os limites da tolerância, porque, enquanto houvesse trabalho, seu pai tinha esperanças. Tão desesperada, Raabe não conseguia nem pensar.

“Rápido, menina!”, sua mãe a apressava.

Porém, Raabe já tinha arrumado sua cama, estava quase terminando de se vestir e acabando de fazer tudo em silêncio, com calma. Ela não se apressaria nem que o exército do rei estivesse à sua porta.

Seu pai apareceu triste, mastigando um pedaço de pão envelhecido, com o rosto pálido e cansado brilhando por causa do suor. Raabe vestiu seu cinturão com um movimento rápido e pegou um pedaço endurecido de bolo de cevada que serviria como café da manhã e parte do almoço. Ao dar um abraço apertado no pai, ela disse: “Bom dia, papai”.

Ele se esquivou de seu abraço e disse: “Deixe-me respirar, Raabe”. Voltando-se para sua esposa, ele afirmou: “Tomei uma decisão. Se eu vir que não há nada a ser colhido hoje, desisto”.

Raabe suspirou espantada enquanto sua mãe deixava escapar um lamento inquieto: “Inri, não! O que será de nós?”

Seu pai encolheu os ombros e saiu. Aparentemente, suas esperanças haviam findado. Ele admitiu a derrota. Em meio à escuridão, Raabe o seguiu sabendo que aquele dia não seria diferente dos outros, mas, só de pensar na desgraça de seu pai, sentiu-se mal.

Seus irmãos, Joa e Karem, esperavam do lado de fora. Karem mastigava um bolo de uvas, privilégio que a mãe preservava para o filho mais velho. A esposa de seu irmão, Zoarah, se aproximou falando baixo por causa de Raabe. Apesar da preocupação, Raabe mostrou um sorriso enquanto seu irmão, casado há um ano, dava as mãos à esposa. Os dois se casaram por amor, o que não era comum em Canaã. Mesmo implicando, sempre que havia chance, com seu irmão mais velho, o coração de Raabe batia mais forte ao pensar em uma união como aquela. Às vezes, em meio à escuridão, enquanto toda sua família dormia, ela sonhava em ter um marido que a amasse tanto quanto seu irmão amava Sarah. Porém, nos últimos dias, seus pensamentos estavam tão consumidos pela preocupação que não lhe restava mais tempo para sonhar acordada.

Esperando no limite mais afastado do pequeno terreno da família, Joa, o filho mais novo, de 14 anos, olhava para o nada. Raabe não o ouviu proferir mais do que três palavras durante tantos dias; era como se a seca tivesse acabado também com sua fala. Ela percebeu que o irmão estava com uma olheira muito forte e com o corpo debilitado, apesar da alta estatura. Provavelmente, ele tinha saído de casa sem comer nada. Raabe pegou o pão que estava guardado em seu cinturão, dividiu-o em duas partes e levou para Joa. O que não era o bastante nem mesmo para ela, imagine tendo de dividir para dois.

“Coma isso, rapaz!”

Joa ignorou a irmã e ela perguntou: “Você quer que eu te perturbe até chegarmos à lavoura, ou não?”

Ele olhou irritado para ela, mas estendeu a mão. Ela continuou por perto para certificar-se de que ele tinha comido, e em seguida foi atrás do pai.

À medida que eles andavam em direção aos portões da cidade, os passos assumiam um ritmo mais acelerado. Raabe notou que até mesmo Karem, que costumava não se preocupar, parecia bastante angustiado. Finalmente, ele quebrou o silêncio que pairava sobre eles. “Pai, fui até Hebrom, na venda que o senhor falou, mas ele se recusou a vender óleo ou cevada por aquele preço. Ou ele dobrou os preços desde a última vez que o senhor comprou, ou o senhor se enganou em relação ao valor.”

“Então mande Raabe ir até lá. Foi ela quem negociou da última vez.”

“Raabe. Tinha que ser”, Karem afirmou com um ar de bondade reluzindo de seus olhos. “Apenas um olhar para esse rostinho lindo que todas as possibilidades de lucros e quantias desaparecem de Hebrom.”

“Não é bem assim!”, Raabe retrucou muito irritada. “Não tem nada a ver com o meu rosto; eu apenas sou melhor nas negociações do que você, só isso.”

“E você chama isso de negociação? Dar piscadinhas com os olhos não me parece negociação.”

“Eu vou é dar vassouradas se você não tomar cuidado com o que fala.”

“Chega!”, ordenou o pai deles. “Assim vocês me deixam com dor de cabeça.”

“Perdão, papai”, disse Raabe corrigindo-se imediatamente. Seu pai não precisava de mais problemas e ela deveria aprender a controlar seus impulsos. Ele já estava com tantas preocupações pesando sobre os ombros que ela queria ser um conforto, não um fardo a mais.

Raabe não conseguia o consolar em palavras. Em vez disso, seguindo seus instintos, ela estendeu a mão à procura da mão do pai e a segurou. Por um instante, ele pareceu não perceber sua presença. Em seguida, virando-se para ela e meio disperso, ele percebeu a proximidade. Raabe lhe ofereceu um sorriso reconfortante, mas ele afastou a mão.

“Você já está muito grande para andar de mãos dadas.”

Ela ficou envergonhada e escondeu a mão por entre as roupas. Diminuindo o ritmo de seus passos, Raabe ficou para trás andando sozinha e seguindo as pegadas dos três homens.

Na lavoura, os quatro examinaram cada parte da plantação buscando por sinais de vida. Salvo alguns besouros com cascas grossas, eles não encontraram nada. Quase ao meio-dia, Raabe estava abatida demais para continuar e se sentou enquanto eles concluíam cuidadosamente a inspeção. Quando eles voltaram, seu pai murmurou em voz baixa: “O que nós vamos fazer? O que vamos fazer?”

Raabe desviou o olhar. “Vamos para casa, papai.”

Em casa, ela abriu a velha cortina que servia como porta principal e entrou, mas sua mãe a escorraçou gesticulando: “Dê um pouco de privacidade a mim e ao seu pai”.

Raabe consentiu com a cabeça e saiu. Em seguida, se recostou na parede repleta de lodo em meio às grandes sombras. Ela só queria achar uma forma de ajudar a família, mas nem mesmo seus irmãos conseguiram arrumar trabalho na cidade. A cidade de Jericó, que já estava abarrotada de lavradores desesperados em busca de trabalho, não os animava muito. De que jeito ela, uma simples menina, poderia ser útil? O som de seu nome ecoando pela janela resgatou sua mente distraída.

“Deveríamos tê-la oferecido como esposa de Ian no ano passado em vez de esperar uma oferta melhor”, disse a mãe.

“Como iríamos saber que enfrentaríamos uma seca que nos levaria à falência? De qualquer modo, o dote que ele nos ofereceu não daria para nos sustentar nem por dois meses.”

“Mas seria melhor do que nada. Fale com ele, Inri.”

“Mulher, ele não a quer mais. Eu já perguntei, e ele está na mesma situação que a nossa.”

Raabe prendeu a respiração tentando não perder detalhe algum da conversa. Em circunstâncias normais, a vontade de escutar a conversa alheia jamais passaria por sua cabeça, mas algo na voz de seu pai a fez especular. Raabe se arrastou como uma lagartixa pela parede e continuou ouvindo.

“Inri, se fizermos isso não teremos como voltar atrás.”

“O que mais podemos fazer? Diga.” Um silêncio intenso se juntou à ira de seu pai. Quando ele falou novamente, a voz dele estava mais calma e aparentemente cansada. “Não há outro jeito. Ela é a nossa única esperança.”

Raabe sentiu um enjoo no estômago. Em que seu pai estaria pensando? As vozes ficaram muito baixas para ouvir. Frustrada, ela foi andando até o fim das terras de sua família. Em uma estrebaria quase destruída, dois cabritos definhados roíam um arbusto ressequido no qual não havia mais nada a não ser madeira. Com os homens e Raabe trabalhando na lavoura todos os dias, ninguém teve tempo de cuidar da estrebaria. O cheiro pútrido agredia seus sentidos - um pano de fundo perfeito para suas emoções mais intensas, ela pensou. Seus pais se referiram a ela como a única forma de salvar a família, mas eles não falavam sobre casamento. De que outra maneira uma menina de quinze anos conseguiria ganhar dinheiro? Com a respiração rápida, Raabe levou as mãos ao rosto. Papai nunca me obrigaria a fazer isso. Nunca. Ele preferiria morrer. Tudo não passava de um malentendido. Mas o enjoo no estômago se intensificava cada vez mais.

,.

“Sua mãe e eu estávamos pensando em seu futuro, Raabe”, disse o pai no dia seguinte enquanto Raabe se levantava. “Filha, você pode ajudar sua família inteira, mesmo que seja difícil para você. Eu sinto muito-”. Ele parou de falar de repente como se não soubesse mais como prosseguir.

Ele não precisou falar mais nada. O terror a apavorou de tal maneira que ela não conseguia respirar. Com grande espanto, Raabe se deu conta de que seus piores medos haviam se tornado realidade. O pesadelo que ela havia interpretado como um mal entendido na noite anterior era verdade. O pai realmente queria vendê-la como prostituta. Ele queria sacrificar o futuro, o bem-estar e a vida dela.

“Muitas moças precisam fazer isso - algumas mais novas do que você”, disse ele.

Raabe olhou apavorada para o pai; ela queria gritar. Raabe queria agarrá-lo e implorar. Pense em outro jeito, papai. Por favor, por favor! Não me obrigue a fazer isso. Eu pensei que fosse sua garotinha preciosa! Eu pensei que o senhor me amava! Mas ela sabia que seria em vão. Seu pai já tinha tomado a decisão e não se abalaria com suas súplicas. Assim, ela engoliu cada palavra, assim como os argumentos e esperanças. Você nunca mais será o meu pai, ela pensou. Desde quando aprendeu a falar, ela já chamava seu pai de papai com uma ternura infantil, que demonstrava sua afeição pelo homem mais importante do que qualquer outro no mundo. Mas aquela ternura infantil havia se acabado para sempre. A dor dessa constatação era quase pior do que ter de vender seu corpo em troca de dinheiro.

Como se estivesse ouvindo algumas palavras não ditas, ele perguntou novamente: “Que outra escolha eu tenho?” Raabe se virou para que não precisasse olhar para o pai. O homem que ela amava mais do que qualquer outro, em quem confiava e quem tanto estimava estava disposto a sacrificá-la para o bem de toda a família.

Esse não era um acontecimento inusitado em Canaã. Muitos pais jogavam suas filhas na prostituição para sobreviver. Mas, mesmo assim, ainda que a escolha de seu pai não fosse nada fora do comum, Raabe não se conformou. Havia nada mais sujo e baixo para ela do que viver como prostituta.

Seu pai estava respirando rápida e intensamente. “No templo você vai ter reconhecimento. Você será bem tratada.”

Raabe se esforçou para falar, como se alguém a estivesse enforcando. “Não. Eu não vou para o templo.”

“Você vai me obedecer!”, seu pai gritou. Em seguida, mexendo com a cabeça, ele abrandou a voz. “Precisamos de dinheiro, filha. Senão, morreremos de fome, inclusive você.”

Raabe segurou o grito contendo-se para parecer tranquila. “Não estou me recusando a obedecer ao senhor, meu pai. Apenas estou dizendo que não irei a templo algum. Se temos de fazer isso, não vamos incluir os deuses nessa história.”

“Seja sensata, Raabe. Lá, você terá proteção e respeito.” “Você chama o que eles fazem de proteção? Eu não quero o

respeito que as mulheres conseguem no templo.” Ela se virou e olhou para ele diretamente nos olhos, mas ele desviou. Ele sabia sobre o que Raabe estava falando. No ano anterior, a irmã mais velha de Raabe, Izzie, ofereceu o primeiro filho ao deus Moloque. O bebê era uma grande alegria, e desde o momento em que sua irmã disse que estava grávida, Raabe sentiu que tinha uma ligação especial com ele. Ela o segurou minutos depois de seu nascimento, revestindo-o e embalando-o, admirando sua boquinha perfeita que abria e fechava como se estivesse mandando beijos para ela. O amor por ele a invadiu desde aquele momento de pureza. Mas sua irmã preferiu a estabilidade financeira, pois estava cansada da pobreza. Então, ela e seu marido Gerazim concordaram em oferecer o filho a Moloque para o próprio bem do menino.

Eles não deram a mínima atenção quando Raabe implorou que eles mudassem de ideia. Os dois estavam decididos. “Nós teremos outro filho”, disseram eles. “Ele será tão lindo quanto esse e terá tudo o que quiser, o que é melhor do que ser criado na pobreza e passar necessidade.”

Raabe foi ao templo com eles no dia do sacrifício na esperança de fazê-los mudar de ideia. Mas nada do que ela disse convenceu o casal.

Seu sobrinho não foi o único bebê sacrificado naquele dia. Havia pelo menos uns doze. O lugar estava cheio de pessoas que assistiam aos sacrifícios, e algumas encorajavam os sacerdotes, que ficavam diante de fogueiras enormes cobertos do pescoço até os tornozelos, a oferecer sacrifício. Raabe se apavorou com o que viu e ficou pensando em como seria a natureza de um deus que prometia uma vida boa às custas da morte de um bebê indefeso. Que tipo de felicidade alguém poderia comprar por esse preço? Ela manteve o filho de sua irmã nos braços até quando pôde, murmurando palavras de conforto enquanto observava aquele pequeno corpo. Ele exalava o cheiro do leite e do pão de mel mais doces. Raabe o apertou contra o peito pela última vez enquanto lhe dava beijos de despedida. O bebê gritou quando mãos brutas o arrancaram do colo de Raabe, mas aquilo não foi nada em comparação ao seu último grito à medida que o sacerdote se aproximava da fogueira ardente...

Raabe deu um passo incerto na direção de Gerazim, mas viu que Izzie já estava em seus braços.

Naquele dia, Raabe prometeu que jamais se curvaria diante de tais deuses. Ela os odiava. Apesar de todos encantos fulgentes, ela tinha visto quem eles realmente eram: consumidores da humanidade.

As terras de Izzie e Gerazim estavam tão devastadas quanto as de Inri, e eles fizeram tanto em favor das bênçãos de Moloque. Ela nunca recorreria a ele. Não, o templo não era lugar para ela.

“Raabe”, seu pai argumentou enquanto mordia uma das unhas já roídas, “pense em como será a sua vida fora do templo. Você é jovem, não entende”.

Não se tratava de não ter medo. A vida das prostitutas fora dos templos era difícil, arriscada e vergonhosa. Mas ela sentia menos medo de ter aquela vida do que de servir aos deuses de Canaã.

“Pai, por favor. Não sei se consigo aguentar a vida no templo.” Esperava-se que as filhas obedecessem aos seus pais sem hesitar, e as objeções e os argumentos de Raabe poderiam ser considerados desobediência. Seu pai poderia levá-la à força para qualquer templo e vendê-la sem que ela tivesse chance de se defender. Ela imaginou que seu pai nunca se rebaixaria a tal comportamento, mas depois se lembrou da noite anterior em que também achava que ele nunca exigiria que ela se prostituísse. Raabe perdeu o chão, e nada mais lhe parecia seguro.

Karem, que chegou no meio da conversa entre os dois, afirmou de repente: “Pai, o senhor não pode fazer isso com essa menina. A vida dela será destruída!”

Inri deu um golpe no ar com um gesto impaciente. “E por acaso você descobriu alguma outra maneira de mantermos nossa família durante o inverno? Você arrumou algum trabalho? Ou conseguiu herdar dinheiro de algum tio que nós não conhecemos?”

“Não, mas eu ainda não tentei tudo. Há outros trabalhos, outras possibilidades.” O coração de Raabe bateu mais forte com esperança por causa do apoio de seu irmão, mas a esperança logo se acabou com a resposta do pai.

“Quando você se der conta de que não tem mais nada, sua linda esposa e seu filho que ainda nem nasceu morrerão de fome. Raabe é a única certeza de que sobreviveremos. Esse é o único jeito”, repetiu ele com uma convicção absurda.

Karem abaixou a cabeça e não falou mais nada.

Raabe caiu no chão sem conseguir conter as lágrimas. Inri foi para o outro lado da casa e sentou-se em um canto olhando para o nada. A discussão findou à medida que suas palavras não ditas os separavam. Em meio àquele silêncio, Raabe sentiu que uma parede havia se erguido entre ela e o pai, e que a parede era tão inabalável quanto os muros da cidade.

Aconteceu que os dois estavam sentindo muita vergonha; Inri, porque tinha fracassado como pai - como protetor - e ela, por causa do que estava prestes a se tornar. Raabe ficou paralisada pela traição do pai, e um sentimento de solidão mais sombrio do que tudo que ela conhecia fora aprisionado em seu coração como um corpo na sepultura.

Depois de tudo, Inri não poderia recusar o único pedido de sua filha. Porém, o fato de Raabe não querer entrar no templo deixou seus pais em uma situação ainda mais difícil. De que maneira eles arrumariam clientes para ela? As coisas no templo eram simples e diretas, mas ninguém sabia como proceder de acordo com o desejo de Raabe.

“Tem uma mulher que mora perto de nós; ela treinava as mulheres do templo”, sua mãe sugeriu. “Agora ela ajuda mulheres que trabalham em outros lugares.”

“Eu sei quem é ela”, Inri murmurou. “Ela me parece rigorosa.” “Eu também a conheço.” Raabe uma vez viu a mulher agredindo uma das moças até sair sangue da orelha dela. “Talvez essa não seja a melhor ideia.”

“Você nunca aceita as minhas sugestões”, respondeu a mãe com a voz trêmula de censura. “Você tem ideia de como isso dói em mim? Você sabe como é difícil para um coração de mãe ter que suportar a dor de um filho?”

“Não, eu provavelmente não sei”, Raabe afirmou com palavras fortes como pedra. Ela achou melhor engolir quaisquer referências óbvias à sua própria dor. Dizê-las apenas faria sua mãe ter outro ataque de culpa e sofrimento, e Raabe não estava disposta a consolá-la enquanto sofria por causa de seus próprios sonhos destruídos.

“Por que eu precisaria dar metade dos meus lucros a uma mulher que me bateria? Se a intenção é me fazer ganhar o suficiente para manter a família, não podemos ter uma parceira desonesta.”

“Raabe, nós não sabemos como... como fazer isso”, disse o pai batendo os dedos na mesa.

Raabe sentiu o gosto amargo da raiva na garganta. Ignorando-o, ela falou: “Vamos até Zedeque, o ourives. Ele saberá o que fazer”. De vez em quando, seu pai fazia alguns favores a Zedeque. Ele era um homem rico, ourives do rei, e tinha boas relações na aristocracia de Jericó. Durante os últimos seis meses, por todas as vezes que Zedeque viu Raabe, ele olhava para ela com um desejo tão intenso que não lhe restava dúvida. Ela sabia que ele não a queria como esposa, pois se quisesse, já teria pedido ao seu pai. Contudo, Raabe sabia que ele pagaria bem pelos seus serviços, e ela queria fazê-lo pagar um bom preço. Já que era preciso passar por essa situação horrível, ela queria conquistar um pouco mais do que o alimento que garantiria a sobrevivência de sua família durante a seca. Raabe se libertaria do pai; ela ainda o amava e sua dedicação pela família continuava a mesma, mas estava determinada a nunca mais depender da proteção dele.

“O que Zedeque tem a ver com isso?”, perguntou a mãe.

Inri não respondeu. Ele fechou os olhos, esfregou as mãos na cabeça e disse: “Nada não”.

Raabe saiu em silêncio para chorar sozinha.

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“Quanto será necessário para nos alimentar por um ano?”, Raabe perguntou ao pai enquanto seguiam para o comércio de Zedeque. Suas pernas tremiam mais e mais a cada passo, porém ela se recusava a submeter-se ao medo que a desolava em seu íntimo.

“Por quê?”

“Peça a quantia necessária para isso e mais um cordão, brincos e braceletes de ouro para mim.”

“Garota, você é bonita, mas não é tão bonita. Nenhum homem em sã consciência pagaria tanto por uma noite, ainda mais para você.”

Seria ela atraente o bastante para convencer Zedeque a lhe dar uma boa quantia? Raabe sabia que já atraía os olhares dos homens nos últimos dois anos, quando seu corpo tomou forma e seu cabelo perdeu a placidez adolescente ganhando cachos firmes castanho-avermelhados. O que ela faria por Zedeque? “Não apenas uma noite”, ela respondeu distraída. “Três meses. Ele me terá enquanto ainda sou jovem e pura... antes de mais ninguém...”.

Sua voz sumiu. Ela mal conseguia pensar em passar por aquilo de noite em noite, com homens diferentes entrando e saindo de sua vida. Talvez ter um cliente com alguma estabilidade a faria tolerar a situação por mais tempo.

“Eu vou pedir, mas não espere que ele aceite.”

“É um bom negócio. Ele aceitará. Mas olha, três meses e nem mais um dia.” Seu pai olhou como nunca havia olhado para ela antes; talvez ele não a conhecesse. Nem mesmo ela conhecia a si mesma.

Zedeque era um homem gordo e dentuço. Ele se vestia muito bem, ornado com ouro da cabeça aos pés, com enfeites em sua barba e guizos delicados nos sapatos de tecido. Quando ele viu Raabe e o pai entrando no comércio, foi direto ao encontro deles atropelando alguns clientes. “Bom dia, Inri!”, disse ele olhando fixamente para Raabe.

Pelas pupilas escuras de Zedeque, ela conseguia ver o reflexo do próprio rosto - seu nariz pequeno, seus lábios arredondados e seus olhos grandes, inchados por causa das lágrimas. Raabe havia lavado os cabelos para aquela visita; seus cachos escapavam por debaixo do véu, as mechas castanhas em forma de espiral davam forma ao seu rosto e caíam em cascata sobre as costas. Ao se lembrar do motivo que a fez lavar os cabelos, ela demonstrou vergonha e desespero - e pensou no olhar de Zedeque.

Seu pai pigarreou. “Podemos falar com você, meu senhor?

Em particular?”

Zedeque barganhou o quanto pôde, mas Inri, pensando em si mesmo, não cedeu. Zedeque olhou para Raabe, passou os dedos nos lábios e fez uma última tentativa. Quando Inri a negou gesticulando com a cabeça, Zedeque virou as costas e saiu. Raabe segurou a mão do pai e se levantou para ir embora; o pai lançou-lhe um olhar desesperado, mas ela continuou irredutível e ele cedeu. Zedeque, vendo a determinação dos dois, voltou e aceitou a oferta. Raabe percebeu que seu pai parecia espantado, mas assumiu uma feição branda, disfarçando a própria surpresa. Assim como seu pai, ela mal podia acreditar que Zedeque estava disposto a pagar tanto por ela.

Pelos três meses seguintes, Zedeque foi seu mestre. Ele gostava de ver que ela não sabia nada, e gostou de vê-la chorando durante a primeira semana. Depois, ele também gostou de consolá-la e não foi cruel. Ele nunca bateu ou abusou de Raabe. E se algo lhe despertou repugnância ou nojo, tanto dela mesma quanto dele, ela jamais o deixou perceber.

Quando os três meses se passaram, Zedeque entregou uma sacola cheia de ouro a Raabe. Além da sacola, ele deu algumas tornozeleiras conforme ela havia pedido. Ao conferir a quantia, Raabe percebeu que ele havia lhe entregado dinheiro a mais e voltou para prestar contas. “Meu senhor”, ela disse, “o senhor me deu dinheiro a mais.”

“Minha querida Raabe está recusando dinheiro?” “Eu não trapaceio meus clientes.”

“Clientes?” Ele revirou os olhos. “Você só teve um, e não está me trapaceando, menina. Eu estou dando a você.”

Raabe se curvou agradecendo e segurou a sacola de dinheiro com firmeza, quase desejando que Zedeque pedisse para ela ficar por mais tempo. Ele estava certo; ela não tinha conhecido homem algum além dele. Raabe não gostava do contato com ele, mas ela preferia estar apenas com um homem a ser um brinquedinho de muitos outros. No entanto, Zedeque não mostrou interesse em continuar com ela. Certamente ele já estava satisfeito.

Ela voltou para casa e entregou a sacola de ouro ao pai. “Zedeque mandou o pagamento pelos três meses.”

Seu pai olhou fixamente para dentro da sacola e exclamou: “É muito! Nunca pensei que ele pagaria tanto!”

“E não vai haver mais outra. Zedeque já está satisfeito. Ele não me quer mais.” Raabe tentou repelir as lágrimas.

“E o que você esperava?” Inri olhou de relance para ela antes de fixar o olhar novamente na sacola. “Foi muito bom ele ter ficado todo esse tempo com você, Raabe. Ele é um cidadão do mundo e está acostumado com o melhor.”

Como se ela não fosse boa o bastante. Raabe se deixou cair em uma almofada, e as palavras de seu pai a fizeram ver uma verdade que ela não ousava admitir para si mesma. Depois que um homem a conhecesse daquela forma, ele a rejeitaria. De qualquer maneira, ela seria indesejável ou não seria o bastante. Seu pai sabia disso; Zedeque sabia disso, e agora ela também sabia. De repente, ela se sentiu gélida. Raabe apoiou a cabeça nos joelhos, envolveu as pernas com os braços e começou a tremer. Seu pai foi até seus irmãos e sua mãe mostrar a sacola de ouro. Se não fosse pelo trigo e pelo óleo que Zedeque deu, a família já teria morrido de fome. Aquela quantia de ouro era o bastante para o ano inteiro e para comprar sementes para a colheita do ano seguinte.

Através da velha cortina que separava os cômodos, Raabe ouviu a voz abafada dos pais enquanto conversavam. “Inri, o que vai ser dela agora?”, perguntou a mãe com uma voz aguda. “Você consegue convencer Zedeque a ficar com ela?”

“E como eu poderia fazer isso? Ele já está cheio dela, é isso.” “E o que devemos fazer? Ninguém vai querer se casar com ela agora.”

“Você sabia a resposta para isso desde o primeiro dia, mulher. Ela terá de tirar proveito disso, assim como todos nós. Sua beleza será útil a ela; ainda deve haver outros homens interessados. Bem, pelo menos por um tempo.”

Raabe se retraiu ainda mais e engoliu um gemido. Sem pensar, ela pegou uma parte do grande tecido de seda do vestido em cada uma das mãos, amaciando-o como uma criança assustada faria com o cobertor. Ela se sentia apavorada pelo medo à medida que pensava no futuro - e em todos os Zedeques que entrariam e sairiam de sua vida e de sua cama.

Ela lamentou pelos sonhos que jamais se realizariam e pelo destino que ela jamais teria. Raabe lamentou pelas escolhas que não fez e, por fim, cansada de tanto chorar, ela fechou os olhos e se deitou no chão frio. Em meio ao desespero, um pensamento lhe ocorreu. Ainda lhe restava uma escolha; embora estivesse sujeita a vender seu corpo por dinheiro, ela poderia escolher seus amantes. Escolheria cada homem de acordo com sua vontade própria. Raabe tinha sido rejeitada por Zedeque, e aquilo foi muito difícil de engolir. Pelo menos aquela amargura ela evitaria. Ela seria dona do seu próprio coração, sem deixar que ninguém entrasse, e expulsaria cada homem antes mesmo de ele se dar conta de que ela não merecia ser amada, como fez Zedeque.

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Durante os meses em que Raabe esteve sob os cuidados de Zedeque, ela teve contato com outros homens importantes que ele conhecia. Muitos deles deixaram claro que, quando Zedeque terminasse, eles ficariam felizes em tê-la.

Raabe escolheu cuidadosamente, e um homem de cada vez. Ela restringia suas escolhas: tinha poucos clientes, mas muito generosos. Seu critério incomum aumentou sua popularidade entre os homens das classes altas, e cada um deles gostaria de ser escolhido. Raabe tornou-se a competição que eles desejavam ganhar.

“Raabe, você é a mulher mais bonita de Jericó”, muitos homens afirmavam. “Nem mesmo o rei tem uma mulher no palácio que se compare a você”, sussurravam eles em seu ouvido.

Em poucos dias, essas palavras colocaram sorrisos em seu rosto, mesmo que aquela alegria fosse superficial e passageira. Em seu interior, ela sabia que todos aqueles homens que a consideravam incomparável se cansariam dela depois de três meses, jogando-a fora como se faz com os ossos depois do banquete.

Às vezes, depois de estar com um homem, Raabe pegava a esteira e a sacudia sem parar. Havia dias em que ela dava beijos de despedida no cliente, sorria como se ele fosse o homem mais importante do mundo, fechava a porta e vomitava. Ela odiava o que fazia, mas não parava. Ela achava que não havia alternativa. O que mais ela poderia fazer depois de ter se prostituído? Sua vida se restringira a esse destino.

Quando Raabe alcançou os dezessete anos, tinha uma quantia em prata suficiente para comprar uma estalagem próxima aos muros da cidade, e sair de casa foi mais fácil do que ela imaginava. Dois anos de noites em claro e de dias constrangedores fizeram-na se afastar da família. O seu corpo a levava para onde seu coração já estava há muito tempo. Mas isso não queria dizer que ela não amasse mais a família como antes. Muitas vezes, em sua estalagem, ela sentia falta deles; porém, descobriu que estar com sua família apenas a fazia sentir-se mais solitária. Então, cada vez mais ela dedicou o tempo às necessidades de sua estalagem.

A maioria das donas de estalagem em Canaã também eram prostitutas, e isso era tão comum que os dois quase significavam a mesma coisa. Todavia, Raabe pensava em sua profissão separadamente. Nem todos que entravam eram recebidos em sua cama. Ela fazia questão de que sua estalagem fosse reconhecida como um lugar de elegância e conforto. Decorando-a com tapeçarias e com carpetes valiosos, ela recusou-se a aderir à ornamentação pomposa das outras estalagens. A localização ajudava: os muros ainda eram uma parte exclusiva de Jericó e, apesar do tamanho pequeno das residências e estabelecimentos construídos naquela região, eles eram algumas das propriedades mais cobiçadas de Jericó. Quando Raabe fez vinte e seis anos, sua estalagem era tão popular quanto ela, apesar de não ser tão acessível quanto seu corpo. Foi essa exclusividade que fez a entrada em sua estalagem ser tão requisitada.


Capítulo Dois

Na primeira vez que Raabe ouviu falar de Israel, ela estava trabalhando. Escondida sob um lençol de linho, observava com os olhos entreabertos enquanto Joabe, seu cliente, andava angustiado. Sua sobrancelha era tão castanha que a fazia lembrar a casca de uma noz. Raabe percebeu que ele estava agitado, mas esperou até que ele estivesse pronto para falar. Os homens admiravam as mulheres que se calavam nas horas certas. Quando finalmente se cansou de andar como um leão enjaulado, ele começou a falar.

“Raabe, os hebreus derrotaram o rei Siom e seus filhos ontem à noite. O rei dos amorreus foi destituído por um bando de nômades. Agora toda Canaã corre perigo.”

“Do que você está falando?”, perguntou ela, enrolando-se no lençol e sentando-se. “Siom não pode ter sido derrotado.” Siom, um dos maiores reis do leste do rio Jordão, dominava o reino como uma águia. Ela ouvia muitos homens o chamando de indestrutível e que seu reino estaria seguro para sempre.

“Ele foi destruído, já disse, pelos hebreus. O líder deles, um velho chamado Moisés, enviou uma mensagem ao rei pedindo para viajar por suas terras em paz. Siom não apenas negou, como também preparou seu exército para atacá-los em Jaza. Talvez ele tivesse pensado que seria uma vitória fácil. Mas não demorou muito para que os hebreus virassem o jogo”. Joabe parou de falar e ficou olhando para o nada, como se lhe faltassem palavras. “Eles são bravos; estavam sem nenhum armamento. Então, quando o exército de Siom começou a correr...”.

Raabe se esticou. “O exército de Siom correu?”

“É o que eu estou dizendo. Eles foram massacrados, e aqueles que não morreram de imediato correram. Mas os hebreus sem armadura correram mais rápido e os capturaram. Eles mataram alguns homens com fundas. Quem conseguirá dormir tranquilamente depois disso?”

Raabe ficou de queixo caído com aquelas palavras. Para ela, assim como para todos que ouviram falar sobre aquele acontecimento, os hebreus eram um povo desconhecido. Impossível! “Quem são esses hebreus? Nunca ouvi falar deles. Como eles demonstraram tanto poder?” Os ouvidos de Raabe não estavam acreditando no que ela dizia.

“Isso é o mais impressionante. Eles não são ninguém. São um bando de escravos fugitivos.” Joabe foi caindo até o chão e recostou a cabeça na parede. “Quarenta anos atrás, eles fugiram do Egito e, até então, vagavam pelo deserto. Eles não têm cidades, nem muros, nem terras para plantar ou arar, nem vinhas para colher. Todo mundo os ignorou.”

“O que você está dizendo não faz sentido. Como um exército de escravos conseguiria fugir do Egito? Como se o faraó permitisse. Isso é apenas um boato.” Ela olhou para ele e controlou o medo. Cruzando os braços, Raabe se recostou em um travesseiro.

Joabe levantou os braços irritado. “Raabe, você é jovem demais para entender. Houve uma grande rebelião de escravos no Egito, liderada por Moisés. Ele afirmava que seu deus queria que o faraó libertasse os hebreus. Faraó recusou-se a princípio, mas tantas pragas recaíram sobre os egípcios pelas mãos do deus hebreu que faraó teve de libertá-los. O Egito estava arruinado. Depois, no último segundo, ele mudou de ideia. Enquanto os hebreus partiam, o faraó preparou o exército e os perseguiu.”

“Não me diga que os escravos destruíram as carruagens de faraó com suas fundas?”, Raabe sorriu forçadamente.

Joabe suspirou. “Não foi tão simples. A rota de fuga os levou em direção ao mar, um verdadeiro beco sem saída. O exército invencível de faraó perseguiu os hebreus, mas, diante deles, havia uma quantidade de água impossível de atravessar. Eles estariam condenados, mas o deus deles abriu o mar.”

Raabe levantou uma das sobrancelhas: “Ah, sei!”

“Ele abriu o mar, é verdade! Ele o dividiu exatamente ao meio. Eles caminharam por entre as águas até o outro lado na terra seca com a água contida à sua volta. Em seguida, quando faraó e seu exército tentaram segui-los, as ondas os envolveram por cima. Cada um deles foi derrotado.”

Enquanto Joabe repetia a história, Raabe se lembrou de ter ouvido algo sobre a morte misteriosa de um dos faraós e de seu exército. Foi quando os pais dela ainda eram jovens, e o Egito ainda não tinha se reerguido totalmente depois daquela derrota. Que tipo de deus ostentaria tanto poder? Se tudo aquilo fosse mesmo verdade, quem poderia se impor contra tal deus? Ela começou a entender o motivo de tanto medo por parte de Joabe.

Curvando-se, ela pegou um tecido bordado que estava no chão e o colocou sobre a própria cabeça. “Quer ficar aqui hoje à noite? Posso fazer um jantar se você quiser.” Era melhor ela se concentrar em tarefas menores do que nos feitos dos reis e dos deuses. O que ela, uma simples dona de estalagem, tinha a ver com acontecimentos tão grandiosos?

Mas ela não conseguia tirar aquela história de Joabe da cabeça. Na manhã seguinte, os soldados nos portões da cidade confirmaram o que ele dissera, ou pelo menos a parte sobre a derrota de Siom. Hesbom estava sob o domínio dos judeus. Certamente, aquilo já era assustador o bastante, sem falar nos mistérios.

,.

Juntamente com todos em Canaã, Raabe logo ouviu mais notícias perturbadoras sobre os hebreus. Nos meses seguintes à derrota de Siom, eles haviam ganhado outras batalhas surpreendentes. Eles sitiaram e dominaram as cidades fortificadas de Nofá, Medeba e Dibom, matando todos os habitantes. A cada derrota, Canaã ficava mais e mais aterrorizada. Os rumores corriam, e os hebreus eram imbatíveis. Eles eram incontáveis, e suas armas eram feitas de um metal que ninguém conseguia destruir. Eles tinham cavalos arrebatadores e cresciam mais do que tudo a cada vitória.

Raabe não acreditava naqueles relatos exagerados sobre o povo hebreu. Ela se lembrou das palavras de Joabe enquanto ele falava sobre a derrota de Siom. Eles não eram ninguém. Não tinham um arsenal sofisticado nem armamentos, muito menos terras e riquezas. Aquela era a real faceta do povo hebreu, ela acreditava. E, ainda assim, eles estavam exterminando uma cidade após a outra, um exército após o outro. O que estaria por trás daquele povo?

Até mesmo Jericó, a grande Jericó com seus muros antigos e seu exército bem treinado, estava receosa. Canaã ostentava muitas muralhas, mas nenhuma delas se comparava à morada de Raabe. Os muros de Jericó eram assombrosos. Eles eram tão espessos que as pessoas construíam casas e estabelecimentos neles. Na terra de Canaã, quando as pessoas queriam dizer que alguém era forte, elas faziam comparações com os muros de Jericó. Mas até mesmo o povo de Jericó estava temeroso com as conquistas impressionantes dos hebreus a leste do rio Jordão.

A quantidade de sacrifícios aumentava à medida que as pessoas buscavam proteção contra a ameaça daquele novo inimigo terrível. Raabe sentia de longe o cheiro da carne queimada nos templos e nos altares, a ponto de o rei mandar seus soldados manterem a ordem. Havia rumores de que as prostitutas no templo trabalhavam dia e noite, e Raabe sentia pena delas. Ela esperava que elas ficassem cansadas o bastante para pensar e sentir alguma coisa.

A idolatria desesperadora do povo não atraía Raabe. Quanto mais ela via aquele tipo de fé em prática, mais ela a abominava. Nem mesmo o medo e o desespero a fariam se entregar a Baal, Moloque ou Asera.

Sua vida seguiu normalmente apesar da agitação nas ruas. Ela deixou Joabe, e, por um bom tempo, sua estalagem e sua cama permaneceram vazias. Poucas pessoas viajaram durante aqueles dias, com medo dos assaltos dos forasteiros. Raabe tinha uma quantia suficiente de ouro, e a falta temporária de trabalho não a preocupava. As terras de seu pai receberam uma ajuda extra, ela foi passar alguns dias na lavoura trabalhando duro como lavradora. Sua pele escureceu e suas unhas ficaram feias. Isso não é para mim, ela pensou enquanto observava suas mãos ásperas depois de uma tarde de trabalho debaixo do sol. Perceber aquilo a fez sorrir. Embora tivesse desejado muito fazer aquela escolha aos quinze anos, ela sabia que não merecia viver daquele tipo de trabalho. A vida dos lavradores era curta e dura, e ela não tinha força suficiente.

Certa noite, ela recebeu um convite para um banquete, enviado por um primo distante do rei. Com o passar dos anos, Raabe tinha se tornado uma convidada especial nas festas dadas por homens influentes que queriam um bom divertimento longe das esposas. Ela foi ao banquete sabendo que não poderia mais continuar ausente para que não fosse esquecida nesses meios sociais tão importantes.

Raabe escolheu um vestido de seda cor de creme com detalhes bordados em prata. Por suas roupas, ninguém nunca diria que ela era prostituta. Ela se vestia como qualquer outra mulher elegante de Canaã, tendendo mais à simplicidade do que à exuberância. Ela achava que as curvas do corpo de uma mulher, quando mostradas com certa modéstia, chamavam muito mais atenção que as vestes ultrajantes. Diferentemente da moda na época, que ditava que as mulheres deveriam puxar mechas finas dos cabelos adornando-as na testa, Raabe preferia deixar os cabelos soltos até as costas. Ela usou brincos grandes e colocou enfeites no braço. Ela não queria ficar muito tempo, mas queria deixar boa impressão.

“Raabe!”, exclamou o anfitrião quando ele a viu entrar, surgiu um belo sorriso de seu longo rosto.

Ela tirou as mãos da cintura e fez uma reverência gentil. “Meu mestre.”

“Eu queria mesmo te ver aqui.”

Ela sorriu ao olhar para os olhos dele. “Sua casa está linda esta noite, meu senhor.”

“Agora que você chegou, certamente ela ficou linda.”

Raabe sorriu. “Eis o perigoso charme real.” Ela sabia que qualquer primo do rei gostava de ser tratado como realeza. A mão da realeza estava descendo demais pelas costas de Raabe e ela desviou rapidamente, esbarrando em um corpo forte. Virando-se, ela exclamou. “Perdão.”

Ela conhecia aquele homem de vista; ele servia como general do exército - ele era um dos melhores militares de Jericó. Como era mesmo o nome dele? Debir, lembrou ela.

“Manobras evasivas”, disse ele com uma cara séria. “Eu entendo.” Algumas formas sinuosas surgiram ao redor de seus olhos. Raabe ficou sem ação e virou a cabeça desviando o olhar, e o anfitrião já tinha ido receber outra pessoa.

“Um esbarrão amistoso”, ela respondeu. Ele sorriu. “Eu me chamo Debir.”

“Eu sei. Sua presença já diz tudo, meu senhor. Eu me chamo Raabe.”

“Sim. A sua presença também faz o mesmo.”

Ela inclinou a cabeça. “Suponho que tenha ouvido falar de mim nas conversas com alguns de seus amigos.”

“Ah! Não sou chegado a essas conversas tolas.”

“Nem eu. Prefiro conversas inteligentes, mas isso não é muito comum na minha profissão.”

“Na minha também não.” Os dois riram. Naquela noite, um entendimento mútuo misturado com respeito se deu entre os dois. Dentro das primeiras horas em que eles se conheceram, Raabe decidiu aceitar Debir como amante.

Ele ficou muito feliz em ser o companheiro dela. Raabe sabia que ele ficaria com ela não por luxúria ou por algum motivo afetivo, mas simplesmente por estar livre de responsabilidades durante algumas horas. Até mesmo um homem firme como Debir precisava ficar em algum lugar onde não fosse continuamente atormentado para ter de tomar decisões e fazer julgamentos importantes. Por onde quer que Debir andasse, ele carregava nos ombros o peso das expectativas. Suas três esposas e seus muitos filhos dependiam dele tanto quanto as tropas do exército real. Debir ficou com Raabe simplesmente para relaxar.

Diferentemente dos outros homens, Debir gostava da sagacidade de Raabe e de conversar com ela. Assim, por muitas vezes, ele falava sobre assuntos políticos, algo que a maioria dos homens de Jericó pensava estar acima da compreensão feminina; apesar disso, ele nunca compartilhou segredos de Estado. Ele era um soldado dedicado demais para isso. Mas conversava com ela sobre as guerras que aconteciam nos arredores e sobre as mudanças que estavam ocorrendo em Canaã.

“Parece que os hebreus sitiaram Ogue”, disse ele para ela em uma noite, com os traços do rosto brandos e curiosamente sem expressão, como se tivesse acabado de proclamar a notícia mais arrasadora que Canaã ouvira em cem anos.

Raabe murmurou. Ogue, o rei de Basã, era conhecido por ser um gigante tanto na estatura quanto na habilidade. Sua cama de ferro era considerada uma das maravilhas do mundo, de tão comprida e grande que era. Nenhum cananeu conseguia imaginar alguém que tivesse coragem suficiente para lutar contra Basã. “Agora, com certeza eles serão destruídos”, afirmou ela.

Debir levantou uma sobrancelha, mas não disse nada. “Você não acha?”

“Digamos que eu não queira tirar conclusões precipitadas.” “Você não acha que Ogue pode derrotá-los? Você acha que eles podem invadir a cidade de Edrei?”

“Edrei é uma questão diferente. A cidade é protegida por um desfiladeiro de um lado e uma montanha de outro. Ela é localizada bem no meio desses dois. Estrategicamente falando, Edrei é impenetrável. Não vejo como Moisés e seus guerreiros feiticeiros conseguiriam entrar.”

“E não é lá que Ogue está?”

“Por enquanto, sim. Ele se estabeleceu lá, e tudo o que tem a fazer é sentar e esperar os hebreus saírem. Será um cerco longo e cansativo. Os hebreus não podem fazer nada, a não ser esperar. Eles precisarão de comida, bebida e plantação para os animais. Com o tempo, eles terão de desistir e se entregar.”

Raabe franziu as sobrancelhas. “Eu achei que você estivesse com medo de Ogue perder, mas agora você está me dizendo que ele sequer vai precisar lutar.”

Debir foi até a janela, olhou para as plantas e para os montes que levavam ao Jordão. Nenhum sorriso surgiu em seu rosto até quando ele se voltou para encará-la. “É muito pior para o orgulho de um rei quando ele precisa se esconder em vez de lutar. Talvez ele não perca, mas também não vença. Ogue é um guerreiro e seu orgulho é grande como suas pernas. Será preciso uma boa dose de consciência para mantê-lo protegido em Edrei.”

“E você acha que ele tem mais orgulho do que consciência.” “Vamos apenas esperar para ver.”

,.

Ogue preferiu lutar. Como o rei era tolo, ele preparou o exército inteiro para ir de encontro aos hebreus na batalha. Um único soldado sobrevivente contou a história para um comerciante que passava para ir a Jericó. A cidade de Edrei fora atacada por um enxame de vespões. O local estava cheio deles; os insetos levaram os cavalos à loucura, e não havia como escapar. Seus ferrões eram tão cruéis que mataram dos mais jovens aos mais velhos. Cada um de seus guerreiros gemeu de dor e foi assolado pela vergonha. Ogue não pôde aguentar. Ser aprisionado no próprio reino por um inimigo inferior era muito ruim, mas a indignação de ser picado por vespões era demais para ele. Ele não era um escravo para se acovardar em suas terras fugindo de um bando de inúteis! Assim, ele decidiu reunir os filhos e o exército para lutar contra os hebreus.

Mas os hebreus exterminaram cada um deles e dominaram as terras.

“Agora, não vai demorar muito para que Moisés comece a olhar para Jericó”, disse Debir depois de contar a história da derrota de Basã a Raabe. Ele estava deitado de costas, olhando para o teto. “Somos a primeira maior cidade a leste do Jordão, e se ele entende alguma coisa de guerra, fará de nós seu próximo alvo.”

A boca de Raabe ficou seca depois de ouvir aquelas palavras. “Bem, então não abra os portões nem saia para enfrentá-los se eles vierem. Estaremos protegidos entre nossos muros.”

Com os dedos polegar e indicador, Debir espantou uma mosca que estava perto dele, mas foi tão agressivo que a mosca morreu. Voltando-se para Raabe, ele disse: “Você sabe que eles atravessaram o mar Vermelho enquanto fugiam de faraó. O mar se rompeu e caiu sobre o exército do Egito”.

Raabe se deixou cair em uma almofada de plumas e se recostou em uma peça escarlate de tapeçaria. “Não me diga que você acredita nessa loucura?”

Debir olhou para ela de forma enfática. “Eu acredito, e tenho acreditado por quase quarenta anos desde a primeira vez que ouvi falar nisso. O deus deles está muito além da nossa compreensão.”

O sorriso de Raabe estava cheio de sarcasmo. “Outro deus sanguinário. Maravilha! É tudo que Canaã precisa.”

Ele mexeu a cabeça e seus olhos brilhavam encantados. “Você tem ideias muito estranhas, Raabe. Agradeça pelos deuses não terem acabado com você.”

“Eu os deixo sossegados e eles retribuem o favor. Por que você acredita nessas loucuras de mares que se partem e de faraó se afogando, Debir? Espalhar boatos não tem muito a ver com você.”

“Não são boatos.”

“Você viu com seus próprios olhos?”

Debir passou a mão pelos cabelos. “Mas eu vi pelos olhos de quem viu em primeira mão: um dos hebreus”.

Raabe apromou-se. “Você conhece um deles?”

“Quarenta anos atrás eu conheci.” Debir se levantou da esteira e foi sentar-se perto dela. “Cruzei com ele antes do meu treinamento militar. Se não fosse tão jovem, eu teria visto que ele era um espião. Naquela época, acreditei que ele fosse comerciante, conforme havia falado. Ele me viu nos portões e me deu um salário por tê-lo ajudado a conhecer a cidade durante uma semana.”

Seus olhos se arregalaram. “Por que, então, eles não nos atacaram naquela época? Para que esperar por quarenta anos e só então começar a atacar?”

“Não sei. Talvez esse Moisés estivesse se preparando durante esses anos. Afinal, ele era o líder naquela época também.”

“Talvez ele morra antes de enfrentar Jericó.”

“Mas eu tenho a sensação de que nem isso os impediria. O hebreu sobre o qual eu falei com você me disse que o verdadeiro líder é o deus deles. Foi ele quem enviou Moisés para ir ao Egito a fim de libertar seu povo da escravidão. Ele disse a Moisés que havia visto a aflição e a miséria de seu povo e que estava preocupado com o sofrimento deles. Ele queria libertá-los do jugo de faraó.”

Raabe franziu as sobrancelhas, pensativa. Palavras como preocupado não faziam parte do vocabulário dos deuses. Mesmo assim, se Debir estivesse certo, haveria então um deus que sentia compaixão do sofrimento humano, e pensar na compaixão vinda de um deus trouxe uma sensação diferente ao seu coração. Um desejo intenso a arrebatou e quase a fez chorar; era o desejo de ter alguém que se preocupasse com seu sofrimento e se importasse o bastante para resgatá-la.

Sem dó nem piedade, ela repreendeu aquele desejo pérfido. “Bem, ele não tinha tanta compaixão pelos egípcios, já que afogou vários deles. Ele se importa apenas com os hebreus? Ele não pensou nas mães e esposas que sofriam no Egito?”

Debir pegou um dos cachos pesados de seus cabelos e o puxou levemente. “Eu não teria compaixão alguma dos egípcios se eles tivessem tratado o meu povo como tratavam os hebreus. Por incrível que pareça, o deus dos hebreus deu muitas oportunidades para que o faraó libertasse seu povo sem que houvesse mortes. Ele dava um aviso após o outro, mas o orgulho foi maior. O Egito não se curvou à sua vontade; se não tivessem perseguido o povo hebreu, ninguém teria se afogado.”

Raabe soltou das mãos de Debir o cacho de seus cabelos. “O que mais esse homem falou para você sobre o deus deles?”

Debir deu de ombros. “Ele é um tanto peculiar. Não permite que estátuas dele sejam construídas, as pessoas não podem vê-lo ou tocá-lo; ele diz ser o Único e Verdadeiro Deus, por todos os lugares e acima de tudo. Seria hilário, se não fosse o poder que ele parece ter.”

“Um deus que não se pode ver? Qual seria o objetivo? Como se pode acreditar em algo que os sentidos demonstram não estar presentes?”

“Eu não sei, mas o espião hebreu me disse que isso não é impedimento. Ele disse que há outras maneiras de sentir a presença de deus sem ser as imagens.”

Raabe se apoiou com os cotovelos e olhou fixamente para Debir. “Como, por exemplo?”

“Eu não sou um seguidor, Raabe. Não sei muita coisa sobre o assunto. Só o que posso dizer é que ele é bastante verdadeiro. Por exemplo - essa você vai achar interessante -, ele proíbe a prostituição como parte da adoração. Um dos lugares onde levei o hebreu foi o templo. Ele cobriu os olhos quando viu as prostitutas com os adoradores e me disse que, segundo a lei dos hebreus, elas deveriam ser apedrejadas.”

“Apedrejadas?”

“Você seria uma hebreia muito má, não é, Raabe? Ou seria uma hebreia morta.”

Ela engoliu em seco. Havia uma jarra com vinho por perto e ela colocou um pouco em um cálice que ela mesma tinha ornado em prata, esquecendo-se de oferecer a Debir. O vinho desceu como poeira.


Capítulo Três

Ninguém conhecia como Raabe o poder destrutivo de sua profissão. Ninguém sabia melhor do que ela o que aconteciacom a alma de alguém quando entregasse seu corpo sem nenhum envolvimento emocional, sem compromisso algum e sem esperanças no futuro. Nenhum prazer poderia preencher o abismo da solidão que não parava de crescer a cada dia. Havia dias em que ela gostaria de estrangular os homens que a tocavam sem nenhum sentimento, e havia dias em que ela achava que sua morte não seria um destino tão ruim assim. Na verdade, ela já se sentia parcialmente morta, e parecia que o deus hebreu concordava com ela. Ele era um deus de compaixão, mas, para Raabe, ele só tinha pedras. “Continue”, ela disse a Debir cheia de medo e fascinação ao mesmo tempo.

Debir inclinou-se até ela, tirou o cálice de sua mão e tomou em um só gole o restante da bebida. “Aparentemente, o deus hebreu tem um coração tão piedoso quanto o de uma mulher. Naquele dia, os sacerdotes do templo estavam sacrificando muitas crianças.

Você acredita que o espião chorou ao ver? Nunca me esquecerei de suas lágrimas. Ele era um homem grande, com boa estrutura e bastante musculoso - de forma alguma ele parecia frágil, exceto pelas lágrimas que rolavam pelo seu rosto. Como era jovem, eu o considerei um fraco, que chorava como um garoto despreparado diante do sacrifício.

“Ele perguntou se eu não sentia aversão. ‘Claro que não’, eu respondi. Ele me disse que seu deus jamais permitiria tal atitude, e depois disse: ‘Seus corações são muito endurecidos, Debir. Seu povo se edificou muito além da redenção, e nem mesmo o Senhor consegue resgatá-los. E Ele é o Senhor dos céus e da Terra’.”

Raabe se voltou para Debir segurando a respiração. Um deus que dava valor à vida? Um deus que se importava com bebês desconhecidos? Um deus que viu a injustiça de Canaã e a declarou muito além da redenção? Mais uma vez ela sentiu aquele desejo, agora ainda mais forte. Mas a ironia daquele desejo também não a abandonava: a ironia lamentável de uma prostituta de Jericó que desejava conhecer o deus hebreu.

“Então você acha que o deus deles está sistematicamente nos purificando por consequência de seu julgamento?”, ela perguntou. Debir encolheu os ombros. “Eu não sou sacerdote. Como soldado, posso dizer que eles estão vencendo batalhas que não deveriam vencer. O deus deles me deixa perplexo, pois parece ter mais poder do que qualquer outro. Poder e compaixão. Nunca vi nada parecido e, se você quer saber a verdade, não me importo em enfrentar isso agora. Só espero que o deus hebreu esteja satisfeito com as terras do oeste do Jordão. Deixe-os se estabelecerem por lá, e talvez possamos negociar com eles.”

“Mas, para você, isso não vai acontecer.”

Debir inclinou-se e encheu novamente o cálice de prata. “Se eu fosse o general deles, eu não o faria. Cercados por midianitas, edomitas, amorreus e egípcios, como eles se protegeriam? Seria preciso dormir com um dos olhos abertos para o resto da vida por muitas gerações. Se o deus deles deseja dar descanso ao povo, ignorar-nos não seria uma boa tática.”

“Você está com medo dele - desse deus?”, ela deixou a pergunta escapar.

O fato de ela ter feito essa pergunta poderia ser considerado um insulto a qualquer homem, mas Debir não deu tanta importância à inconveniência de suas palavras. Ele se levantou de repente e começou a andar de um lado para o outro naquele lugar apertado. “O Senhor, é assim que eles o chamam”, ele falou ajoelhando-se bem perto de Raabe. Ela sentia o calor de sua respiração embebida no vinho à medida que ele falava. “Todos estão com medo. Até mesmo os quartéis foram tomados pelo medo. Se Ogue e Siom não conseguiram conter o Senhor, como nós poderemos? Ele não está interessado em termos e compromissos. Ele é como o fogo que se consome. Você perguntou se eu estou com medo. Raabe, eu nunca soube o que era medo... até agora.”

“Você acha que nós vamos morrer.” Não era uma pergunta. Ela conseguia ver a convicção estampada em cada traço do rosto de Debir. O Senhor. Finalmente ela havia encontrado um deus de poder e compaixão, m