Congelamento e uso de Microondas

Congelamento e uso de Microondas

Congelamento e uso de Microondas

Este documento é um Guia Prático de Atualização da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), elaborado pelo Departamento Científico de Nutrologia. Seu objetivo é esclarecer, com base em evidências científicas, dúvidas frequentes de famílias sobre o uso do micro-ondas e do congelamento no preparo de alimentos para crianças.

O documento nasce de uma preocupação real da prática pediátrica: muitas famílias, buscando praticidade no dia a dia, recorrem ao congelamento de refeições e ao micro-ondas para aquecê-las. Ao mesmo tempo, circulam nas redes sociais informações sem comprovação científica que geram medo sobre esses métodos, fenômeno que os autores chamam de "terrorismo nutricional" — a disseminação de alertas exagerados ou infundados que causam insegurança nas famílias sobre a alimentação infantil.

Sobre o congelamento: o documento explica que esse processo consiste em retirar calor do alimento, mantendo-o em temperatura baixa para impedir ou reduzir a ação de micro-organismos, oxigênio e enzimas (substâncias que aceleram reações químicas nos alimentos, incluindo sua deterioração). Quanto mais rápido for o congelamento, melhor a preservação das características originais do alimento.

Um ponto de atenção é o branqueamento, técnica usada especialmente em hortaliças antes de congelar, que consiste em mergulhá-las brevemente em água ou vapor bem quente (entre 85°C e 100°C) por poucos minutos. Essa etapa, embora necessária para preservar a qualidade do alimento no congelamento, pode causar perda de vitaminas hidrossolúveis (aquelas que se dissolvem em água, como a vitamina C e as vitaminas do complexo B). O documento destaca que a vitamina C é a que mais se perde nesse processo, sendo inclusive usada como um indicador de referência para avaliar se o congelamento foi bem-sucedido. Já a vitamina B2 e o caroteno (pigmento presente em vegetais, precursor da vitamina A) sofrem alterações mais discretas.

Outro cuidado importante mencionado é a embalagem adequada dos alimentos congelados. Sem proteção correta, pode ocorrer a chamada "queimadura de congelação", que altera cor, textura, sabor e valor nutritivo do alimento, além de facilitar a oxidação. O documento também alerta que congelar e descongelar repetidamente o mesmo alimento não é recomendado, pois os tecidos do alimento já descongelado perdem sua capacidade natural de defesa, tornando-se mais vulneráveis à multiplicação de micro-organismos que podem causar deterioração mais rápida. Por isso, a orientação é que o alimento passe por apenas um ciclo de congelamento e descongelamento, sendo consumido no menor tempo possível após isso.

Sobre o micro-ondas: o documento explica que esse aparelho utiliza ondas eletromagnéticas que fazem as moléculas de água dos alimentos vibrarem, gerando calor que cozinha o alimento de forma rápida. Segundo os autores, esse aquecimento rápido é, na verdade, um dos processos menos agressivos aos nutrientes, já que, de forma geral, quanto mais tempo um alimento leva para cozinhar, maior a chance de os nutrientes serem desestabilizados. Além disso, como o micro-ondas geralmente não exige o uso de água durante o preparo, ele ajuda a preservar melhor as vitaminas hidrossolúveis, de maneira parecida com o que ocorre na cocção a vapor — considerada uma das formas mais indicadas de preparo, especialmente para hortaliças.

Um alerta prático relevante do documento diz respeito aos recipientes usados no micro-ondas. Recomenda-se o uso de vidro, louça ou papel, evitando plásticos. Embora o plástico também seja permeável às micro-ondas, seu uso não é indicado, principalmente por poder liberar substâncias químicas como percloratos, ftalatos e possivelmente bisfenol A (substância também mais comumente associada a latas). O documento cita revisões científicas que associam a exposição a essas substâncias, tanto durante a gestação quanto após o nascimento, a possíveis alterações no desenvolvimento infantil, incluindo maior ansiedade, hiperatividade, sintomas depressivos e alterações cognitivas, como menor desempenho em testes de QI e maior dificuldade de atenção. É importante destacar que essas informações representam associações observadas em estudos, e não uma relação direta e comprovada de causa e efeito em todos os casos. Ainda assim, diante dessas evidências, a recomendação prática é clara: sempre que possível, substituir recipientes plásticos por vidro ao usar o micro-ondas, especialmente quando se trata de alimentos, fórmulas lácteas ou leites destinados a crianças.

A conclusão dos especialistas é equilibrada: tanto o congelamento quanto o uso do micro-ondas causam alguma perda nutricional, mas essas perdas não são consideradas muito significativas quando se avalia a relação entre custo e benefício desses métodos no dia a dia das famílias. O documento reforça a importância de priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, conforme já recomendado pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, mas reconhece que o micro-ondas pode até apresentar vantagens em relação ao cozimento tradicional por fervura, justamente por não precisar de água. Já o congelamento, quando bem executado, permite variedade no cardápio, acesso a alimentos fora da época de safra e manutenção da qualidade higiênico-sanitária, sendo uma alternativa segura e nutritiva para as famílias.

O que isso significa na prática?

Para as famílias, este documento traz uma mensagem tranquilizadora: usar micro-ondas e congelar alimentos para as crianças não compromete de forma relevante a qualidade nutricional das refeições, desde que sejam seguidos alguns cuidados simples — como evitar recipientes plásticos no micro-ondas, embalar adequadamente os alimentos antes de congelar e não repetir ciclos de congelamento e descongelamento. Para profissionais de saúde, o documento reforça a importância de oferecer informações baseadas em evidências, ajudando a reduzir a ansiedade das famílias diante de informações alarmistas e não comprovadas cientificamente que circulam nas redes sociais.

O uso responsável do micro-ondas e do congelamento não compromete de forma significativa a qualidade nutricional dos alimentos, e pode ser uma aliada segura e prática na alimentação infantil, desde que sejam respeitados alguns cuidados simples, como evitar plástico no micro-ondas e não repetir ciclos de congelamento.