Resumo da publicação da Sociedade Brasileira de Pediatria: As fake-news estão nos deixando doentes
Estudo produzido pela Avaaz em parceria com a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), com o objetivo de investigar se a desinformação sobre vacinas — popularmente conhecida como “fake news” — está influenciando a queda nas taxas de vacinação no Brasil.
O contexto é preocupante. Nos últimos anos, o país registrou redução na cobertura vacinal infantil, com índices abaixo do recomendado para doenças como sarampo e poliomielite. O estudo parte da hipótese de que informações falsas disseminadas principalmente por redes sociais e aplicativos de mensagens podem estar contribuindo para esse cenário.
A pesquisa foi dividida em três fases.
Na primeira fase, foi realizada uma pesquisa nacional com 2.002 brasileiros com 16 anos ou mais, conduzida pelo IBOPE. O objetivo foi avaliar percepções sobre vacinas, motivos para não se vacinar e principais fontes de informação.
Os resultados mostram que 13% dos entrevistados relataram já ter deixado de se vacinar ou de vacinar uma criança sob seus cuidados — o que representa mais de 21 milhões de brasileiros. Entre os principais motivos citados estão: falta de planejamento, achar que a vacina “não era necessária”, medo de efeitos colaterais graves e falta de informação. Segundo a SBIm e a Organização Mundial da Saúde (OMS), parte desses motivos se baseia em informações incorretas.
Um dado central do estudo é que 67% dos entrevistados acreditaram em pelo menos uma afirmação falsa sobre vacinas. Entre as crenças mais comuns estavam: que vacinas podem causar a própria doença que pretendem prevenir, que podem provocar efeitos colaterais graves com alta frequência, que tratamentos alternativos seriam tão eficazes quanto a vacinação, ou que vacinas poderiam causar autismo.
O estudo não afirma que essas crenças sejam causadas exclusivamente pelas redes sociais. No entanto, identifica uma associação importante: entre as pessoas que usam redes sociais ou WhatsApp como uma das principais fontes de informação sobre vacinas, 73% acreditaram em pelo menos uma informação falsa, contra 60% entre aqueles que não utilizam essas plataformas como fonte principal.
Além disso, 48% dos entrevistados citaram redes sociais ou aplicativos de mensagens como uma das três principais fontes de informação sobre vacinação — ficando atrás apenas da mídia tradicional (televisão, rádio e jornais).
Outro achado relevante é que 38% dos brasileiros relataram receber mensagens negativas sobre vacinas com alguma frequência nas redes sociais ou WhatsApp. Entre aqueles que consideram as vacinas parcialmente ou totalmente inseguras, a maioria afirmou ter tido contato com conteúdo negativo nas redes sociais.
A segunda fase do estudo analisou conteúdos antivacinação circulando no Facebook, YouTube, sites e blogs. A investigação identificou mais de 1.600 links com conteúdo antivacina e monitorou páginas e grupos com milhares de postagens. A análise encontrou grande volume de informações factualmente incorretas, incluindo alegações de que vacinas causariam infertilidade, fariam parte de planos secretos de controle populacional ou estariam ligadas ao autismo.
Um dado importante é que parte significativa do conteúdo antivacinação analisado no Brasil teve origem nos Estados Unidos, especialmente em sites como o Natural News, sendo posteriormente traduzido e republicado em sites brasileiros.
A pesquisa também identificou que muitos conteúdos antivacinação estavam associados à venda de produtos “naturais” ou “alternativos”, sugerindo possível interesse econômico na disseminação desse tipo de mensagem.
No YouTube, foram identificados influenciadores brasileiros com milhões de visualizações em vídeos que questionam a segurança das vacinas e promovem teorias conspiratórias.
O estudo destaca que o alcance das fake news é muito superior ao das correções publicadas por órgãos oficiais. Em alguns casos, conteúdos desinformativos alcançaram milhões de visualizações, enquanto as verificações oficiais tiveram alcance muito menor.
Na terceira fase, a investigação buscou identificar quem está por trás da produção e disseminação desse conteúdo. Foram analisados casos específicos de sites e produtores de conteúdo que combinam teorias da conspiração, críticas à ciência e venda de produtos alternativos.
O relatório conclui que o fenômeno da desinformação sobre vacinas é complexo, envolve fatores sociais, econômicos e digitais, e exige resposta coordenada.
Entre as recomendações estão:
– Maior atuação das plataformas digitais na correção ativa de informações falsas (“correct the record”);
– Ajustes em algoritmos para reduzir a amplificação de desinformação;
– Transparência das plataformas sobre como combatem esse conteúdo;
– Campanhas públicas mais robustas de comunicação sobre vacinação;
– Estratégias específicas voltadas a grupos mais vulneráveis à desinformação, como jovens e homens.
O documento enfatiza que a desinformação não é apenas um problema de opinião, mas um desafio de saúde pública, pois pode impactar decisões individuais que afetam toda a coletividade.
O que isso significa na prática?
A desinformação sobre vacinas pode estar influenciando atitudes e decisões de parte da população brasileira. Para pacientes e famílias, isso reforça a importância de buscar informações em fontes confiáveis, como profissionais de saúde e instituições reconhecidas. Para profissionais e gestores, aponta a necessidade de comunicação clara, acessível e ativa nas redes sociais, onde boa parte da população está se informando. Combater a desinformação não é apenas uma questão de debate online, mas de proteção da saúde coletiva.
A desinformação sobre vacinas não é inofensiva — ela pode influenciar decisões reais e comprometer a proteção da população contra doenças que já sabemos como prevenir.
