O Pediatra na Assistência Perinatal

O Pediatra na Assistência Perinatal

O Pediatra na Assistência Perinatal

Resumo do Documento Científico: A Importância do Pediatra na Assistência Perinatal. Ano: 2023

Por que o pediatra deve estar presente desde a gestação até os primeiros dias de vida?

Este documento é uma Nota de Alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), elaborada pelo Departamento Científico de Neonatologia. Trata-se de um posicionamento oficial que reforça a importância da presença do pediatra em todas as etapas da assistência perinatal — período que compreende o final da gestação, o parto e os primeiros dias após o nascimento.

O texto parte de um dado relevante: a mortalidade infantil (mortes de crianças menores de um ano) caiu de forma significativa nas últimas décadas no Brasil. Em 1990, eram 47 mortes a cada mil nascidos vivos; em 2020, esse número caiu para 11,5 por mil. Essa redução está associada, principalmente, à melhoria dos cuidados neonatais (cuidados especializados com o recém-nascido).

Apesar desse avanço, o documento alerta que metade das mortes no primeiro ano de vida ainda ocorre nos primeiros seis dias após o nascimento. A asfixia perinatal (falta de oxigênio no momento do parto), em grande parte prevenível, permanece como uma das principais causas de morte infantil, ao lado da prematuridade (nascimento antes de 37 semanas) e das malformações congênitas (alterações estruturais presentes ao nascimento).

Diante desse cenário, a SBP destaca três pilares fundamentais para reduzir a morbimortalidade neonatal (doenças e mortes no período neonatal):

  1. Consulta pré-natal com o pediatra;
  2. Presença do pediatra na sala de parto;
  3. Primeira consulta após a alta, nos primeiros dias de vida.

A consulta pré-natal com o pediatra é recomendada para todas as gestantes. Nela, o médico pode identificar fatores de risco familiares, orientar sobre aleitamento materno, vacinação, sinais de alerta e cuidados nos primeiros dias. O documento enfatiza que essa consulta permite antecipar problemas e fortalecer o vínculo entre família e profissional.

No momento do parto, a SBP recomenda parto hospitalar e a presença do pediatra em todo nascimento. Quando o recém-nascido nasce com boa vitalidade, deve-se realizar o clampeamento oportuno do cordão umbilical (esperar pelo menos 60 segundos antes de cortar o cordão) e garantir o contato pele a pele com a mãe. Esse primeiro período é chamado de “hora dourada”, momento fundamental para o vínculo e início da amamentação.

Entretanto, mesmo quando o bebê aparenta estar bem, o documento reforça que o pediatra deve observá-lo atentamente durante o chamado “minuto de ouro” — os primeiros 60 segundos de vida, fase crítica para avaliar respiração e frequência cardíaca.

Cerca de dois em cada dez recém-nascidos precisam de ajuda para iniciar a respiração. Quando há sinais de depressão ao nascimento (como ausência de respiração adequada ou frequência cardíaca baixa), deve-se iniciar imediatamente os passos da reanimação neonatal (manobras para restabelecer a respiração e circulação). A ventilação com pressão positiva (fornecimento de ar com máscara) deve ser realizada por profissional capacitado. Se necessário, pode ser preciso oxigênio suplementar ou intubação traqueal (introdução de tubo na via aérea para auxiliar a respiração). O documento ressalta que essas decisões precisam ser rápidas — em apenas dois a três minutos — o que reforça a necessidade de um pediatra experiente na sala de parto.

Outro ponto crucial é a realização do primeiro exame físico antes da ida ao alojamento conjunto. Algumas condições graves, como atresia de esôfago (interrupção da continuidade do esôfago), cardiopatias congênitas (problemas estruturais no coração) ou imperfuração anal (ausência da abertura anal), podem apresentar sinais discretos nas primeiras horas. Um exame minucioso pode evitar complicações graves ou até óbito.

Após a alta, a primeira consulta deve ocorrer entre 48 e 72 horas. Nela, o pediatra avalia icterícia (pele amarelada), hidratação, ganho de peso, amamentação, resultados dos testes de triagem neonatal e orienta sobre vacinação e sinais de alerta.

O documento também expressa preocupação com iniciativas que tentam reduzir ou excluir a presença do pediatra nesses momentos, seja por alegações de humanização ou por falta de recursos. A SBP considera essa retirada um risco, pois a prevenção e a intervenção precoce são estratégias comprovadamente eficazes para reduzir mortes e sequelas permanentes.

O que isso significa na prática?

Para as famílias, significa que a presença do pediatra não é um detalhe burocrático, mas uma medida de segurança. Desde a gestação até os primeiros dias de vida, esse profissional está preparado para identificar riscos, agir rapidamente em emergências e orientar os pais. Para os serviços de saúde, manter o pediatra na assistência perinatal é investir em prevenção e qualidade do cuidado.

A presença do pediatra desde o pré-natal até os primeiros dias de vida é uma medida essencial de segurança para garantir um início saudável e reduzir riscos graves ao recém-nascido.